Birth_of_a_Nation_theatrical_poster  Felipe da Silva Rodrigues¹

Discutir sobre racismo não é tarefa fácil. A discriminação racial ainda é um fator característico de diversas sociedades, sendo assim intrínseco ao relacionamento entre diferentes culturas. O estranhamento no contato com o outro é esperado, mas a sistematização da opressão sofrida pelos afrodescendentes é uma questão historicamente complicada, apesar das contínuas políticas de incentivo à resolução do tema. Exemplos de violência racial se fazem presentes a todo momento – atualmente de modo mais explícito nos Estados Unidos – denotando que o problema não é apenas social, mas também uma construção já enraizada. Assim, reviver o contexto sócio histórico do início do século XX, presente na mais famosa obra de David Griffth, é essencial para entender como o racismo prevaleceu mesmo após o fim das políticas segregacionistas.

O Nascimento de uma Nação (1915) é inspirado no livro ficcional The Clansman, de Thomas Dixon Jr., um romance histórico de legitimação da supremacia ariana e da necessidade de reforçar esse domínio através de grupos como a Ku Klux Klan. O filme é divido em duas partes de aproximadamente uma hora e meia, contando uma história do século XIX pré e pós-Guerra de Secessão. Em resumo, a trama gira em torno de duas famílias: os Stoneman, nortistas liberais e progressivos, e os Cameron, sulistas escravocratas e tradicionais. Amigos antes do conflito, esses tornam-se inimigos nos campos de batalha. Com a vitória dos estados unidos do Norte, a Confederação do Sul é posta sob a humilhação de uma derrota e o temor causado pela libertação dos escravos.

A fim de reforçar todos os estereótipos possíveis, o diretor a todo momento contrapõe a inocência, a bravura e a justiça do homem branco à devassidão, apatia e perversão do homem negro, além de retratar o caráter oportunista dos políticos do Norte, que usaram a luta pelos direitos iguais como um trampolim para governar o país.  Desta forma, a principal inspiração do filme que inaugura a narrativa cinematográfica americana – marcada por um enredo que ascende até o clímax, desenvolvendo os personagens ao longo da narrativa focada em uma “guerra justa” – é o ódio racial justificado pela tensão do fim da escravidão após a Guerra Civil. Por fim, os vitoriosos são os sulistas brancos, que conseguiram subjugar o negro além de provar aos estados do Norte a periculosidade que a liberdade escrava poderia trazer.

Entretanto, apesar do teor apologético que a película construiu em torno da Ku Klux Klan e da imagem subversiva dada aos ex-escravos, a exibição do filme, iniciada em 1915, incentivou a discussão sobre os direitos civis. O jornalista Dick Lehr, no livro The Birth of a Movement: How Birth of a Nation Ignited the Battle for Civil Rights (O Nascimento de um Movimento: Como O Nascimento de uma Nação inflamou a batalha pelos Direitos Civis, tradução livre), conta a respeito do embate de Griffth com Monroe Trotter, jornalista cujo pai serviu no primeiro regimento formado de apenas soldados negros para lutar pelo Norte durante a Guerra de Secessão. Monroe vai travar uma verdadeira batalha contra a exibição do filme, conseguindo boicotá-lo e até suspender a sua exibição durante um curto período. Porém, o sucesso da obra de Griffth é inegável, arrecadando aproximadamente cem vezes mais o valor do seu orçamento. As inovações trazidas por Griffth quanto ao posicionamento da câmera dentro e fora do estúdio, além da evolução quanto a elaboração de um enredo épico, reafirmam a riqueza da obra como um todo.

Concluo que precisamos separar o filme do seu teor e relativizar a sua contribuição, seja para a indústria cinematográfica ou seja para o debate acerca das questões raciais. O Nascimento de uma Nação foi o primeiro filme a ser exibido na Casa Branca, mas, hoje criou-se um tabu em torno da sua reprodução, como se esta fosse reviver a sua ideologia no território americano. Os avanços na discussão do racismo dependem deste conhecimento do passado, pois só assim poderemos discutir honestamente as raízes da discriminação e pensar em formas de combate-la. É muito difícil promover um ideal de democracia racial quando se ainda tem sujeira embaixo do tapete.


¹Graduando em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Sergipe. Bolsista do Programa de Educação Tutorial do Departamento de História – PET História UFS. E-mail: rodrigues_felipe@outlook.com

 

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