O Nascimento de uma Nação (1915)

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       Discutir sobre racismo não é tarefa fácil. A discriminação racial é um fator característico da nossa sociedade, sendo assim intrínseco ao relacionamento entre diferentes culturas. O estranhamento no contato com o outro é esperado, mas a opressão sofrida pelos negros é uma questão especialmente latente, apesar das diversas políticas sociais de incentivo à resolução do tema. Exemplos de violência racial se fazem presentes a todo momento – principalmente na América do Norte – denotando que o problema não é apenas social, mas também uma construção histórica enraizada no imaginário coletivo. Assim, reviver o contexto sócio histórico do início do século XX, presente na obra de David Griffth, é essencial para entender como o racismo prevaleceu mesmo após o fim das políticas segregacionistas.

          Birth_of_a_Nation_theatrical_poster  O Nascimento de uma Nação é inspirado no livro ficcional The Clansman, de Thomas Dixon Jr., um romance histórico de legitimação da supremacia ariana e da necessidade de reforçar esse domínio através de grupos como a Ku Klux Klan. O filme é divido em duas partes de aproximadamente uma hora e meia cada, e se passa no século XIX pré e pós-Guerra de Secessão. A família nortista Stoneman e os sulistas Cameron, amigos antes do conflito, tornam-se inimigos nos campos de batalha. Com a vitória dos estados unidos do Norte, o Sul é posto sob a humilhação da derrota e o temor causado pela libertação dos escravos.

          A trama, a fim de reforçar todos os estereótipos possíveis, contrapõe a inocência, a bravura e a justiça do homem branco à devassidão, apatia e perversão do homem negro, além de retratar o oportunismo daqueles que usaram a causa racial como trampolim político.  Desta forma, a principal inspiração para o filme que inaugura a narrativa cinematográfica americana – um enredo que cresce até o clímax, desenvolvendo os personagens ao longo de uma narrativa focada na “guerra justa” ao elemento traidor – é o ódio racial justificado pela tensão do fim da escravidão após a Guerra Civil. Ao fim, os vitoriosos são os sulistas brancos, que conseguiram subjugar o negro além de conseguir provar aos estados do Norte a periculosidade que a liberdade escrava poderia trazer.

            Entretanto, apesar do teor apologético que a película construiu em torno da Ku Klux Klan e da imagem subversiva dada aos ex-escravos, a exibição do filme iniciada em 1915 incentivou a discussão sobre os direitos civis. O jornalista Dick Lehr, no livro The Birth of a Movement: How Birth of a Nation Ignited the Battle for Civil Rights (O Nascimento de um Movimento: Como O Nascimento de uma Nação inflamou a batalha pelos Direitos Civis, tradução livre), conta a respeito do embate de Griffth com Monroe Trotter, jornalista cujo pai serviu no primeiro regimento formado de apenas soldados negros para lutar pelo Norte durante a Guerra de Secessão. Monroe vai percorrer uma verdadeira odisseia contra a exibição do filme, conseguindo boicotá-lo e até suspender a sua exibição durante um tempo. Entretanto, o sucesso da obra de Griffth é inegável, arrecadando aproximadamente cem vezes mais o valor do seu orçamento. As inovações trazidas por Griffth quanto ao posicionamento da câmera dentro e fora do estúdio, além da evolução quanto à idealização de um enredo épico, reafirmam a riqueza da obra como um todo.

      Concluo que precisamos separar o filme do seu teor e relativizar a sua contribuição, seja para a indústria cinematográfica, seja ao debate acerca das questões raciais. O Nascimento de uma Nação foi o primeiro filme a ser exibido na Casa Branca, mas hoje criou-se um tabu em torno da sua reprodução – talvez porque a sua ideologia continue presente no território americano. Os avanços na discussão do racismo dependem do conhecimento deste passado, pois só assim poderemos discutir honestamente as raízes da discriminação e pensar em formas de combate-la. É muito difícil querer formar um ideal de democracia racial quando se ainda tem sujeira embaixo do tapete.

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