Resenha do livro “Apologia da História ou o Ofício de Historiador”, de Marc Bloch

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capa_ApologiaHist_15-04-10.aiO interesse pela história é uma característica do homem em todas as gerações, pois muito pode-se saber através da observação do que restou do passado. Esta atração por vezes surge como uma curiosidade a respeito de determinada época ou personagem, posteriormente transformando-se em um ofício, em uma profissão. O historiador é o responsável por fazer deste fascínio um conhecimento científico, mas, para isso, é preciso ponderar sobre a escolha de um tema e sua relevância para a história da humanidade.

Deste modo, o historiador francês Marc Bloch discorre em seu livro Apologia da História ou o Ofício de Historiador, entre diversos assuntos relacionados ao saber histórico, sobre a serventia da história, o caráter científico desta e as principais ferramentas que o historiador tem ao seu dispor. O livro foi lançado em 1949, mas que traz tabus vivenciados hoje porque ainda se relaciona a história sendo exclusivamente feita por acontecimentos do passado, como se o estudo do que acontece hoje estivesse a cargo de quem ainda nem sonha em nascer. É inegável que a época do apogeu romano é fascinante, sem dúvida alguma, mas o presente está cheio de objetos de pesquisa que são preteridos em virtude de uma tradição que Bloch já denunciava no início do século XX, tema de um subcapítulo do seu livro, o “Ídolo das Origens”. É a obsessão com o passado mais recuado, como se na gênese humana estivesse a explicação do presente, que não permite o olhar para o que está em volta. Bloch diz que “alguns, estimando que os fatos mais próximos a nós são, por isso mesmo, rebeldes a qualquer estudo verdadeiramente sereno, desejavam simplesmente poupar à casta Clio contatos demasiado ardentes” (BLOCH, 2001, p. 56), criticando a postura de historiadores que não estudam os fatos recentes por estes não serem tão seguros quanto a Guerra de Peloponeso ou a Idade das Trevas. Essa segurança não provém da quantidade de informações que existe a respeito do passado, mas sim do receio em tocar em assuntos atuais, pois os objetos desses estudos estão “vivos”, necessitando de uma habilidade de investigação maior por parte dos pesquisadores.

A relevância da pesquisa também colabora na discussão sobre a serventia da história. Segundo Bloch, a história é a “ciência que estuda o homem no tempo” e tudo que o homem produziu ou influenciou é um artefato passível de ser “historicizado”, de se tornar parte da história – da história escrita, aquela feita pelos historiadores. Mas, ao longo do tempo existiram diferentes concepções sobre o que deve ser preservado nos livros. Um outro dilema para os estudiosos: o que deve ser transmitido para a posteridade. Pode cada um dar a sua importância para os fatos e escrevê-los ou existe um grau de notoriedade que um assunto deve ter para figurar nos anais da história? Sobre isso Bloch é categórico ao dizer que “Seria infligir à humanidade uma estranha mutilação recusar-lhe o direito de buscar, fora de qualquer preocupação de bem-estar, o apaziguamento de suas fomes intelectuais” (BLOCH, 2001, p. 40). Deste modo, Bloch é adepto de uma perspectiva histórica “ampliada e aprofundada”, onde pode-se analisar as ações do homem nos seus aspectos políticos, religiosos, sociais e culturais de maneira específica, com um olhar mais crítico.

Assim, Apologia da História ou o Ofício de Historiador, um trabalho inacabado em decorrência da morte do seu autor, que começa com uma pergunta feita pelo filho de Marc Bloch sobre “para que serve a história”. Em quatro capítulos, sendo o quinto incompleto, e pouco mais de cento e cinquenta páginas, Bloch explica e defende a sua vocação, além de difundir os fundamentos da Escola dos Annales, movimento fruto de um periódico francês fundando por Bloch e Lucien Febvre para renovar o modelo historiográfico vigente. Para nós, futuros historiadores, refletir sobre as indagações feitas por Bloch é fundamental para podermos compreender as obrigações da nossa profissão.

 

Referência Bibliográfica:

BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história ou O ofício de historiador. Prefácio de Jacques Le Goff. Apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

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