Princesa Mononoke (1997)

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Princess_Mononoke

Se um dia, questionado durante o exercício da profissão, um professor de história necessitasse definir a trajetória da humanidade em algumas sínteses, o mesmo poderia dizer que é uma história sobre amor e ódio, ou sobre vingança e redenção, ou até mesmo sobre guerra e paz, sobre a contínua tentativa do homem de sobreviver enquanto lida com os elementos opostos que vivem dentro de si. Todos estes elementos estão presentes na masterpiece da animação oriental na década de 90: Princesa Mononoke, produzido pelo Studio Ghibli com direção de Hayao Miyazaki.

Lançado em 1997, o filme conta a história do príncipe Ashitaka, que após ser amaldiçoado por um espírito da floresta, é exilado da sua aldeia e precisa viajar em busca de uma possível cura. No caminho, encontra uma sociedade em pleno desenvolvimento tecnológico – a aldeia de Tatari-Ba, que está em conflito com outros seres sobrenaturais. Dentre estes seres, destaca-se San, uma humana que vive com o clã dos lobos, e que se reconhece como sendo um deles, sendo apelidada de Princesa Mononoke, na qual a palavra “Mononoke” denomina uma espécie de espírito vingativo ou raivoso. Após estes acontecimentos desenvolve-se toda uma trama de guerra em que, de um lado estão os humanos (Tatari-Ba com sua líder, Lady Eboshi), e do outro estão os animais da floresta (o clã dos lobos, liderado por Moro, e o clã dos javalis, liderado pelo Okkoto-nushi). No meio encontra-se Ashitaka, que não concorda totalmente com nenhum dos lados e tenta alcançar um estágio de entendimento entre ambas as partes.

O fato de ser uma animação não significa que é um filme para crianças, pois, cada personagem é brilhantemente desenvolvido, mostrando qualidades e defeitos que nem os tornam os vilões, e muito menos os mocinhos da trama – dualidade sempre vista nas obras de Miyazaki. Um ponto fundamental é o caráter ambientalista do longa, visto que todo o enredo é construído em torno da ação do homem com a relação à natureza. Dentre os possíveis tópicos suscetíveis a discussões – como o empoderamento feminino, visto na atitude das personagens San, Lady Eboshi e todas as mulheres de Tatari-Ba, os aspectos do Japão feudal na Era Muromachi (1336-1573) e o antropomorfismo presente na cosmologia oriental – encontra-se a extinção de espécies por conta da atuação do homem, tema do livro A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert.

Jornalista do The New Yorker, Kolbert descreve em seu livro a história da extinção no planeta, desde os primórdios, passando pela origem do termo “extinção”, até os dias atuais, onde a sexta grande extinção ocorre devido o comportamento humano. A vida na terra surgiu a aproximadamente 3,5 milhões de anos, porém, até o final do século XVIII, ainda não se pensava na possibilidade de animais que deixaram de existir ou que corriam o risco do mesmo destino. Mas, com o aparecimento de restos de seres vivos conservados no solo (os chamados fósseis), e os estudos do naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832), os estudiosos perceberam que espécies diferentes das que existem foram se ausentando do ecossistema, sendo extintas. Visando descobrir quais eram essas espécies e o porquê da sua ausência, desenvolveu-se a Paleontologia, ou seja, o estudo das formas de vida através do exame dos fragmentos fossilizados.

Com o trabalho dos paleontólogos, descobriu-se que o planeta terra já passou por cinco grandes extinções, nas quais uma grande parte da vida no planeta desapareceu definitivamente. Todavia, os agentes causadores destas grandes extinções foram todos eventos naturais ou catástrofes, como períodos de glaciação e deglaciação, pois, estes interferem no nível dos oceanos, ou o impacto de um asteroide que, dependendo da proporção, pode afetar uma grande parcela dos seres vivos. O agente causador da sexta extinção não tem a mesma importância de um asteroide, porém, a longo prazo, o dano causado ao planeta consegue ser do mesmo nível das calamidades da natureza. A raça humana, chamada de “erva daninha” no livro de Kolbert, transforma o meio ambiente por meio de ações degradativas (voluntarias, como a destruição das florestas, a caça predatória e a contaminação da água e do ar) e ações evolutivas (involuntárias, próprias do desenvolvimento humano como o aumento da população e o crescimento das cidades).

Esse é a grande questão do livro, pois, apesar de assuntos como desmatamento e poluição serem discutidos há muito tempo, é importante ressaltar que o homem está alterando os biomas do planeta de maneira irreversível, e essa conduta pode levar ao desaparecimento definitivo de animais e plantas caso medidas não sejam tomadas. É uma questão de consciência ambiental, assunto este que todo professor, independente da sua área de atuação, deve aplicar em sala de aula, visto que conteúdos relacionados ao meio ambiente são considerados temas transversais ao currículo de ensino, não se restringindo às disciplinas de ciências naturais. Portanto, é recomendado a utilização do longa-metragem Princesa Mononoke, pois, este mostra, de maneira lúdica, mas explícita, como o homem está, deliberadamente, destruindo o meio ambiente através de ações visando apenas o lucro, esquecendo-se que este comportamento é como uma bomba-relógio sendo entregue nas mãos das futuras gerações.

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