Narradores de Javé (2004)

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“O historiador, por definição, está na impossibilidade de ele próprio constatar os fatos que estuda’’ (BLOCH, 1949, p 69).

 A frase acima, observada na obra póstuma Apologia da História ou o ofício do historiador (1949), do francês Marc Bloch (1886- 1944), em muito diz sobre a produção cinematográfica que aqui se trata. Narradores de Javé, lançado em janeiro de 2004, sob a direção de Eliane Caffé, narra as histórias dos habitantes da cidade fictícia de Javé, localizada no Nordeste do Brasil.

Na trama, a pequena cidade é abalada pela notícia de que teria que ser desabitada por seus moradores para dar passagem a uma represa construída pelo governo. A única forma de salvar o local seria se a cidade fosse considerada patrimônio por meio do processo de Tombamento. A possível solução para o problema vem através de um de seus moradores, Zaqueu, vivido por Nelson Xavier, ator que narra o filme.

Ele sugere que seja escrito um livro com o que ele chamou de ‘’ A Grande História do Vale do Javé’’ para que, reconhecida a importância do local, ele não fosse destruído pelas águas da represa.

O escolhido para a elaboração da obra foi Antônio Biá (José Domunt), ex-funcionário da extinta agência dos correios da cidade e um dos únicos a dominar o ofício da escrita no lugar.

O ‘’ Escrivão de Prosa’’ como se autodenomina Biá, passa então a colher os testemunhos dos moradores de Javé com o objetivo de construir a narrativa a ser escrita no livro. O que se desenvolve a partir de então são diversos testemunhos desencontrados, versões múltiplas da história de Javé.

Cada morador biografa a cidade a partir de seu ponto de vista particular e de acordo com o grau de importância que os acontecimentos e seus personagens apresentavam para eles mesmos, deixando o historiador Antônio Biá em condições desfavoráveis para construção de um discurso uno sobre a cidade: ‘’Quanto às histórias… No papel não há mão que lhe dê razão’’ conclui Biá negando-se a continuar sua tarefa. Javé por sua vez é tomada pelas águas da represa e seus moradores dispersos a outros locais.

Ao final, quando se pensava que a história da cidade não havia sido escrita por Antônio Biá, descobre-se que a ‘’ Grande História do Vale do Javé’’, tinha sido aquela mesma que se assistiu e que foi narrada por Zaqueu ‘’Tá assentada em livro, correndo o mundo pra nunca que ser esquecida. É isso e não tem mais que isso. Quem quiser que escreva diferente‘’ constata o personagem em conclusão do filme.

Considerando todas as versões apresentadas como partes da narrativa do local, Antônio Biá escreveu a história do Vale do Javé, concordando mais uma vez com a obra de Bloch, onde o autor considera que, na impossibilidade de o historiador voltar ao passado, como sugere a citação inicial, buscar compreender os fatos estudados seria seu grande papel ‘’ Uma palavra, para resumir, domina e ilumina nossos estudos: compreender. ’’ (p. 128).

Uma compreensão que, assim como traçou Antônio Biá para a feitura da história do Vale do Javé, atende as diversas versões orais e documentais para o mesmo acontecimento: ‘’Em lugar de um documento isolado, consideremos agora, conhecido por documentos numerosos e variados, um momento qualquer no desenrolar de uma civilização’’ (p. 129).

  Além de apresentar considerações importantes a respeito do historiador e seu ofício, Narradores de Javé pode proporcionar respaldo para discussões acerca da construção de um mito fundador, história e memória, história oral, entre outras temáticas. Tudo isso em uma linguagem leve, misturando o drama do enredo com uma dose generosa de humor promovido pela simpatia e oratória particular dos personagens.  Esses e outros fatores fazem desta produção uma agradável e proveitosa opção para os que buscam um bom filme e uma produtiva discussão sobre o fazer histórico. 

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