O IMPERIALISMO NO FILME “O ÚLTIMO SAMURAI”

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Guilherme Sousa Borges
Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe
Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/FNDE/MEC)

58As produções cinematográficas tem uma importante função histórica: mostrar como a sociedade vê uma determinada época passada. Os Estados Unidos passaram um processo de reconstrução do seu passado através de Hollywood, se retratando como os protetores, heróis e altruístas, sendo que nem sempre essa visão condiz com a realidade.

“O Último Samurai” é um filme de ação e aventura, lançado em 2003 e dirigido por Edward Zwick. O longa-metragem se passa na segunda metade do Século XIX e conta a história de Nathan Algren (Tom Cruise), capitão do Exército dos Estados Unidos que é contratado para organizar e treinar o recém-formado Exército Imperial Japonês. Durante um conflito contra as forças rebeldes conservadoras do General Katsumoto (Ken Watanabe), Nathan é capturado e fica como refém dos Samurais, porém acaba se identificando com a cultura tradicional japonesa e se junta à causa.

O filme se passa no período da história japonesa chamado de Restauração Meiji, quando o poder deixa as mãos dos Daimyo (senhores feudais), representados pelo Xogum (Ditador), e passa para o Imperador (que antes era apenas uma figura representativa e de caráter religioso). Anterior a era Meiji, o Japão estava passando por um isolamento desde o século XVI, ficando fechado aos eventos do resto do mundo. No ano de 1853, uma esquadra norte-americana chega à costa japonesa exigindo a abertura do país, encontro que abalou o já instável governo feudal. Com a abertura, o Japão passa por uma rápida modernização, absorvendo conhecimento tecnológico e aspectos da cultura das nações estrangeiras – momento de estrondoso crescimento econômico e industrial. Nessa época houve o fim dos constantes conflitos entre os lordes feudais, que aos poucos perderam seu poder político, mas mantiveram seus poderios financeiros e formaram os zaibatsus, os grandes grupos empresariais japoneses, como a Honda e a Mitsubishi. A era Meiji termina em 1912 com a morte do imperador, início da era Taisho, que foi marcada por várias crises estruturais, as quais corroboraram para a participação do Japão na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

O personagem principal é um veterano da Guerra Civil Americana. Algren participou da “conquista do Oeste”, quando a marcha do progresso dos Estados Unidos avançou nas nações indígenas ao oeste do território. Após lutar contra essas nações, ele se tornou um homem amargurado e alcoólatra (tanto que na sua primeira aparição ele está bêbado e em várias cenas mostra sua dependência ao álcool) e sofre de constantes pesadelos com as atrocidades que viu e cometeu durante os massacres que participou. Algren chega a um Japão que já está sendo abordado não apenas pelo imperialismo norte-americano, mas pelo imperialismo de várias nações europeias. Ele é recebido por um inglês chamado Graham (Timoty Spall) que comenta com ele sobre o imperador estar contratando arquitetos, engenheiros e militares estrangeiros.

Após a abertura, aconteceu um processo de desconstrução da identidade japonesa. Eles aos poucos abandonaram suas milenares tradições para aderirem ao progresso ocidental, elemento que é o “gatilho” para toda a trama do filme. O general Katsumoto luta fervorosamente contra esse processo de ocidentalização, abandonando sua casa na capital Edo (Tóquio) e passando a viver em uma vila isolada nas montanhas com outros que aderiram a sua causa. Em oposição a ele, está o ministro Omura, o porta-voz do imperador, este que é um jovem sem firmeza e facilmente manipulável, que faz o possível para que o Japão se torne uma potencia como as nações que agora eles tinham contato. No filme a transformação social aparece a todo o momento nas cenas passadas na capital, mostrando as pessoas com roupas tipicamente europeias ou com o exército usando táticas e armamentos estrangeiros. Uma cena que mostra essa mudança cultural é quando eles retornam para a capital e todos ficam com medo dos samurais, enquanto antes eles seriam reverenciados. Outra cena importante é quando o filho de Katsumoto é abordado por policiais por estar com suas espadas na rua, pois ser samurai e portar armas se tornou ilegal, e é humilhado e tem seu cabelo cortado (desonrando-o).

Esta produção cinematográfica foi um épico hollywoodiano, com um elenco conhecido e uma trilha sonora produzida pelo premiado Hans Zimmer. O ponto mais marcante da película é mostrar a tentativa dos ocidentais de levar o progresso para aqueles “bárbaros”, tentativa que sem medir esforços atropelou as tradições e culturas locais (como foi no oeste dos Estados Unidos), tudo, como o Capitão Algren diz no começo do filme, “Em nome dos grandes avanços mecânicos e das oportunidades comerciais”.

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