Keline Pereira Freire
Graduanda em História da Universidade Federal de Sergipe

Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/FNDE/MEC)
kelinepereira1@gmail.com

‘’ Vocês e os militares são como as duas pontas da ferradura, parecem distantes, mas na verdade estão bem próximos.’’

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Talvez essa frase dita por Arthur, personagem de Eduardo Moscovis na obra cinematográfica, seja a melhor síntese para definir o que se propôs em ‘’ O que é isso, companheiro?’’. O filme Lançado em 1997 com direção de Bruno Barreto inspirado na obra literária de mesmo nome de Fernando Gabeira se afasta da visão maniqueísta que é comumente utilizada para se falar da esquerda e da direita no Brasil, principalmente em tempos de ditadura, e coloca lado a lado as opiniões, os pontos de vista e as contradições dos seguidores das duas ideologias antes de se preocupar em classificá-los como vilões ou mocinhos.

   Abusando das paisagens naturais do Rio de Janeiro, onde é ambientado, o filme relata todo o processo de planejamento, execução e desfecho do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil Charles Elbrik pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8 em 1969 durante o regime civil militar. O episódio, que é um dos mais importantes desse período devido ao seu caráter inédito e ousado, tendo em vista o momento de tensão em que vivia o país, é contado ao longo de mais de uma hora e meia de filmagens onde são mostrados os aspectos da ditadura brasileira como, a intensa repressão que sofriam os simpatizantes da esquerda, a tortura, e ainda, o posicionamento de uma parte da população brasileira perante o regime.

    A obra é contextualizada num período de Guerra Fria, mais precisamente em 1969. Uma época de grande domínio norte americano, com inovações tecnológicas e grandes feitos de escala mundial, como a ida do homem à Lua. Além de ter sido um período  de grande influência Soviética. A Guerra Civil Chinesa (1927-1949), bem como a Revolução Cubana (1959), e a ainda em curso Guerra do Vietnã (1959-1975), foram importantes vitórias da esquerda com o apoio do bloco Soviético Socialista sobre o americano capitalista. Vitórias que além de trazerem para o mundo uma demonstração do fortalecimento do ideal comunista e a ascensão de três importantes líderes dessa ideologia, Mao-Tsé-Tung, Che Guevara e Ho Chi Mihn, colocaram a direita em posição de alerta. Considerando todos esses fatos, o que teria então de diferente em ‘’ O que é isso, companheiro?’’

   Ao longo dos seus diálogos o filme nos mostra os dois extremos do pensamento de cada personagem sob influência de suas ideologias. Isso pode ser observado na, poucas vezes assim retratada, figura do militar, dividida entre os tenentes Henrique (Marco Rica) e Brandão (Maurício Gonçalves). O primeiro diz sofrer de insônia e sonhar com tudo de cabeça para baixo por conta das sessões de tortura que realiza, mas ainda assim continua a faze-las alegando estar realizando seu trabalho e seguindo o que segundo ele é a lógica da guerrilha ‘’ se você não tortura eles vencem’’. Em contrapartida, o segundo afirma não ter nenhum problema com as torturas ou com o sono. Os termos utilizados por Henrique para se referir aos comunistas sequestradores do embaixador ‘’ terroristas’’ e ‘” jovens sonhadores comandados por uma escória perigosa’’, também mostram o ponto de vista que regia suas atitudes.

   O mesmo ocorre quando o filme se propõe a mostrar o lado da esquerda na história. Ao mesmo tempo em que se observa jovens como Fernando (Pedro Cardoso) e César (Selton Mello) ou Paulo e Oswaldo, seus pseudônimos dentro do MR-8, nitidamente simpatizantes dos movimentos comunistas e da ideologia Soviética que se mostram indignados com a situação de repressão e censura em que vivia o país e por isso resolvem entrar na luta armada, mas que não se dispõem a ações violentas. Pode-se também notar a figura do Jonas (Matheus Nachtergaele) militante que convocado para liderar a ação do sequestro se revela autoritário, intolerante e repressor com os demais companheiros de causa. Ambos os exemplos mostram que longe das classificações de bem ou mal, nos dois lados é possível identificar atitudes dignas de aprovação ou reprovação.

   Obviamente o filme não escapa por completo das críticas. É importante ressaltar que ‘’ O que é isso, companheiro?’’ foi baseado na obra memorialística de mesmo nome de Fernando Gabeira e sendo assim os acontecimentos retratados na película foram baseados no ponto de vista do autor. Outro fator suscetível a críticas foi a opção do diretor Bruno Barreto em fazer adaptações nos fatos ocorridos na história e conservar o nome real dos personagens, misturando fantasia e realidade. Fato que desagradou principalmente as pessoas que participaram do episódio ou familiares destes. Um risco que se corre quando se dispõe a retratar um importante acontecimento da história recente de um país, quando muitas pessoas ligadas aos fatos ainda estão vivas e mantém opiniões diferentes sobre o assunto.

   No mais, como bem disse em outras palavras Marc Ferro ‘’ o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, é história. O imaginário do homem são tão história quanto a história’’ e nesse sentido ‘’ O que é isso, companheiro?’’ propõe um novo ângulo de uma parte tão sofrida da nossa história, que se for observada de um ponto de vista mais amplo pode ser entendida sob a ótica dos dois lados. Não para justificar, inocentar ou condenar um ou outro, mas para entender além do bem e do mal o que queriam e pensavam os participantes da esquerda e da direita naqueles tempos.

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