A última astronave e o terror nuclear

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Por: Carolline Acioli O. Andrade

Muitos, se não quase todos os brasileiros que viveram os anos 1990, conhecem a canção Eva, gravada pela banda de axé de mesmo nome, em 1997. O que poucos sabem, no entanto, é que a música foi composta pelo cantor italiano Umberto Tozzi e lançada em seu álbum homônimo em 1982. Porém, o que mais chama a atenção em Eva é o que não está perceptível.

Se você já se perguntou sobre a lógica da letra dessa música e nunca entendeu bem o que ela quer dizer, vamos voltar um pouco e entender a época na qual ela foi produzida: anos 1980, o mundo ainda vivia a polaridade ideológica da Guerra Fria. Lançada no início da década,  Eva descreve de forma metafórica e quase mítica o terror e a ansiedade daqueles tempos pela iminência de uma guerra nuclear.

Analisando a letra, encontramos a construção de um quadro apocalíptico do planeta, marcado por uma manhã sem sol e a conclusão de que “é o fim da aventura humana na terra”. O desenvolvimento da canção põe novas cores nessa imagem, apontando para o alcance global da ameaça nuclear –  ”sobre o Rio, Beirute ou Madagascar, toda a terra reduzida a nada, nada mais”. A relação com o momento histórico da Guerra Fria se torna mais clara no trecho seguinte: “minha vida é um flash de controles, botões antiatômicos”.

A iminência de uma nova guerra, com proporções catastróficas, a ansiedade e o pavor diante da possibilidade de concretização desse quadro, são transpostas para a linguagem musical por Tozzi. Porém, resta uma crença de sobrevivência da humanidade, expressada no refrão tão conhecido: “O nosso amor na última astronave, além do infinito eu vou voar sozinho com você. E voando bem alto, me abraça pelo espaço de um instante, me envolve com teu corpo e me dá a força pra viver”. Os homens encontrariam, de alguma maneira, a força para continuar vivendo e para seguir em frente mesmo que uma nova e amplificada guerra mundial ocorresse. Este tom marca um tipo de crença na capacidade de superação humana e uma reminiscência da “fé” no progresso da humanidade.

É claro que falamos muito pouco sobre a relação entre Eva e a Guerra Fria. Este pequeno texto tem como objetivo apenas instigar reflexões sobre a relação entre história e música e também pontuar a potencialidade do uso da música como ferramenta pedagógica. Uma aula sobre Guerra Fria pode ser trabalhada a partir dessa canção – também poderíamos sugerir Wind of Change (Scorpions) -, servindo não apenas para despertar nos alunos um novo olhar sobre a música como também para instigá-los no estudo dos conteúdos da disciplina. É uma ótima dica para nós, futuros professores.

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