Pedro Carvalho Oliverialattes

Graduado em História pela UFS.
Egresso do Programa de Educação Tutorial (PET).
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq).
E-mail: Pedro@getempo.org

Dirigido por Cate Shortland e lançado no Brasil em outubro de 2013, o filme alemão “Lore” conta a história da jovem que o nomeia em meio a uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra Mundial e já ocupada pelos Aliados, no final do conflito. Diante da queda do Terceiro Reich, seus pais – um oficial nazista e sua esposa – fogem deixando Lore (Saskia Rosendahl) e seus outros quatro filhos, dando-lhes a incumbência de cruzarem estradas e vilas em direção a Hamburgo, onde reside sua avó. A narração desta jornada nos fornece, além de um grande filme, importantes representações daquele contexto histórico.

Sua fotografia – variando entre a luz que acentua os traços “arianos” das crianças em fuga, e tons escuros em momentos mais dramáticos ou tensos -, junto com uma trilha sonora marcante, nos transmite a tensão vivida pelos personagens. Mais do que isso, nos oferece uma visão inquietante sobre um cenário de destruição e decadência, cercado por medo e desespero. Era o momento que Eric Hobsbawn chamou de “rendição incondicional” da Alemanha nazista, objetivada em uma guerra onde a destruição total do inimigo era prevista. O novo modelo de guerra surgido no século XX.

Se no século XIX as sociedades ocidentais acreditavam que os cem anos seguintes seriam regidos por um progresso que, entre outras coisas, asseguraria a paz, a Segunda Guerra Mundial eliminou por completo estas perspectivas. Os ainda imprecisos números de mortos, sejam nos fronts ou nos campos de concentração nazistas, revelam um caminho oposto ao que se esperava, nesta que foi uma guerra ideológica. Lore, que poderia muito bem ter ilustrado um cartaz da “Juventude Hitlerista”, sofre pelos resultados da guerra, mas também pelo desmonte de suas crenças.

Este talvez seja o ponto mais interessante a ser debatido. Apesar do fim do regime nazista, a ideologia não morreu em 1945, ao contrário do que muitos podem pensar. Lore demonstra isso questionando a mãe se aquele seria mesmo o fim de tudo, ou se a “grande vitória” ainda estava por vir. Saúda alguns transeuntes em seu caminho com o braço direito erguido, dizendo “Heil, Hitler”, além de encontrar outros alemães incrédulos com a morte do Führer e a derrota na guerra. Muitos deles, ao verem fotos dos campos de concentração espalhadas pelos vilarejos por soldados norte-americanos, enxergam tudo como uma mentira dos Aliados.

O maior conflito da jovem se inicia quando ela depara-se com Thomas (Kai Malina), um estranho que, apaixonado por ela, acaba insistindo em ajudá-la em seu percurso. Num determinado momento, ela descobre que sua maior chance de sobrevivência é judeu, como todos aqueles que aprendeu a odiar. No decorrer do filme, a personagem principal passa por um processo de crise a respeito do que lhe foi ensinado sobre o nazismo e o anti-semitismo, ainda que se perceba a dificuldade da moça em aceitar este “Outro” tantas vezes desumanizado pela sociedade na qual estava inserida.

Ao fim de tudo, após chegar ao seu destino, Lore não é mais a mesma. Apesar de encontrar segurança e conforto, sua mente está intranquila, traumatizada por momentos de grandes dificuldades. Um retrato dos traumas causados por uma guerra que marcou o século XX e foi protagonizada pela destruição massificada de seres humanos. Os efeitos do nazismo são noticiados com frequência nos dias de hoje, ao motivar crimes de ódio em todo o mundo. Jovens que, podemos supor, foram ensinados a perceberem o nazismo como um mal que não deveria ser repetido. O que deu errado? Portanto, “Lore” nos serve como um bom instrumento para não apenas pensar o passado, mas refletir sobre o presente.

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