O cômico que não ri na comédia que não fala

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Natália Abreu Damascenolattes
Graduada em História pela UFS.
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente.
Egressa do Programa de Educação Tutorial/ PET.
E-mail: Natalia@getempo.org

Em 1895, os irmãos Lumière exibem em Paris as primeiras imagens em movimento num filme chamado A chegada do trem na estação de Ciotat. Foram apenas poucos minutos de projeção, mas daí nasce o Cinema. No mesmo ano, no Kansas, Estados Unidos, nasce um dos maiores diretores, atores e comediantes do cinema mudo, Joseph Francis Keaton Jr., artisticamente conhecido como Buster Keaton. Tão estonteante e inovador quanto o próprio cinema, Keaton faria (e ainda faz) uma platéia gargalhar com enredos simples, muitas acrobacias, nenhuma palavra e uma impassível expressão facial.

Filho de um casal de artistas comediantes de vaudeville, gênero teatral de entretenimento de variedades, popular entre os anos de 1880 e 1930, Buster Keaton começou a trabalhar aos quatro anos de idade junto aos pais no espetáculo chamado The Three Keatons. Interpretando uma criança desobediente que era constantemente castigada pelo pai, o jovem Keaton atuava numa atração em que se expunha a situações de risco sendo arremessado ou chutado em pleno palco. Essa técnica de cair sem se machucar, adquirida desde cedo, seria explorada em toda a sua carreira, se tornando posteriormente uma espécie de marca registrada.

Mas, não só as acrobacias e a flexibilidade circense de seu corpo que fazem desse clown do início do século XX influência para muitos comediantes atuais. O seu principal talento era extrair humor das situações de um mundo ao qual seus  personagens não conseguem se ajustar. Os papéis de Keaton, desde o início de sua carreira junto ao popular roteirista, comediante, diretor e ator do cinema mudo Roscoe “Fatty” Arbuckle (1887-1933), parecem ser constantemente provocados, desafiados por diversas circunstâncias que lhes negam desejos, fazem-lhes proibições, forçam-lhes provar inocência ou a mostrar alguma habilidade específica. O humor, então, reside nas inusitadas “respostas” desses sujeitos às cobranças desse mundo que parece invadir sua calma, mas raramente perturbá-la. O embaraço, os atropelos e as soluções pouco convencionais dos personagens que interpreta atestam a criatividade, o dinamismo e a simplicidade do cinema humorístico de Buster Keaton.

Geralmente vestido com calças folgadas, ternos ajustados e um ocasional chapéu de barqueiro, a marca distintiva da arte de Keaton, que chamou atenção dos críticos, foi a ausência do sorriso, o rosto imperturbável, inexpressivo, sobre o qual o espectador podia projetar seus medos e anseios. Devido a essa particularidade, ficou conhecido como o Grande Cara de Pedra ou como o cômico que não ri. Mesmo sem voz e sem a vivacidade das expressões faciais, as personalidades que criava ou interpretava foram amplamente exploradas através da expressão corporal e de olhares que falam por si só. Críticos (de sua época e atuais) pontuam a preocupação do diretor com a construção de seus personagens. Pois, com poucos recursos e em poucas seqüências, conseguimos traçar-lhes o perfil, compreender suas aspirações e tentar imaginar as próximas situações em que irão se envolver. Mas, a flexibilidade do corpo de Keaton e a inusitada utilização dos cenários ou dos objetos em cena garantem momentos que surpreendem o espectador. Assim, as suas imagens são objetivas e dinâmicas, o seu humor, atemporal. A linguagem de seus filmes é simples, mas universal, e capaz de comunicar emoções e sentimentos que palavras não seriam capazes de expressar, numa época em que o cinema já esboçava uma linguagem própria e possuía técnicas específicas, como a montagem e a trucagem, por exemplo.

Em uma de suas mais importantes obras, o longa-metragem The General (1927), podemos observar a notável habilidade de Buster Keaton não só como ator e roteirista, mas também como editor e diretor. O cuidado com os figurinos e cenários enchem os olhos do público. As câmeras em constante movimento que “viajam” junto com os trens (técnica chamada travelling) e as cenas longas, mas com cortes precisos, fazem das vozes e dos efeitos sonoros elementos dispensáveis. As frenéticas cenas de perseguição, as situações perigosas e as idéias imprevisíveis do protagonista Johnny para se safar de seus inimigos na Guerra Civil americana, não deixam a desejar a nenhum filme de aventura contemporâneo.

Assim, lembrado e referenciado por comediantes famosos da atualidade, como o Rowan Atkinson, criador do personagem Mr. Bean, Keaton merece uma observação mais cuidadosa que o recorrente rótulo de “rival de Chaplin”. Afinal, seu legado cinematográfico conquista espaço num tempo de fartura de efeitos especiais de alta tecnologia, e de produções fílmicas que se renovam constantemente em termos de recursos, técnicas, narrativas, enredos, edições e até atuações.

Buster Keaton soube adaptar com maestria o seu humor às limitações tecnológicas de sua época, nem por isso sua comédia não parece datada. Criou imagens que falam por si só e apostou no potencial de se comunicar com o público através dos ansiosos olhos delineados de negro de seus papéis. Foi o “clown” que faz rir sem proferir um sorriso sequer.

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